Procurei meu lugar naquele botequim. Era sempre o mesmo e o mais concorrido: no canto, entre a entrada, a parede dos fundos e o balcão. Mal e porcamente cabia meu corpanzil que cresceu tanto naquele lugar, em meio a carne de onça, costelas de porco e caldos de feijão. Sentei, encostei as costas na parede do fundo, ao lado do relógio de algum uísque que já bebi por ali entre uma garrafa e outra de cachaça. Apoiei meu braço no encosto da cadeira, sentado meio torto, meio de lado, meio que já preparando meu corpo para o jeito que eu sempre deixava aquele meu habitat.
Em seguida Sanny chegou, já puxando a cadeira ao meu lado. Ela era uma mulher delicada, em sua forma de ser, de andar, de falar. Seu rosto, envolto em cachos médios, algo entre castanhos e dourados, era prejudicado por um wayfarer vermelho que soava grande em seu rosto, mas não maculava seu charme ao sorrir para nosso colegas de bodega. Seus cabelos quase chegavam aos ombros, mas paravam acima deles. Não há como definir um corte, mas ainda que indecifrável, era de uma beleza singular. Usava um vestido pseudo moderno, lembrando Olivia D’Abo no papel de Karen Arnold em Anos Incríveis, junto com uma sapatilha escura combinando com suas pulseiras e colares.
Naquela postura “moderna-com-requinte-de-anos-1960”, que a fez assumir-se Sanny enquanto seu RG confirma-a Sônia, pediu licença e se sentou, contrariando a minha cara de bons amigos só que não. Ela tinha esse desejo de me entender entre cada gole. Queria saber da minha mudez, entender a minha surdez entre tantos amigos de bar com quem dividi noites e noites. Como podia estar ali há tanto tempo e ficar sempre isolado, naquele ar de quem não quer conversa, e ainda assim sorrir ao cumprimentar os companheiros? – Ela pensava.
Ela já me conhecia há alguns anos. Fizemos um curso de redação juntos no segundo grau, e meu trabalho final foi uma carta de amor para ela. Sabia que eu sempre fui de poucos amigos, mas de grandes amizades. De doação e dor na mesma intensidade. De abraçar querendo tomar pra mim o que machuca aos outros. Para ela eu tinha a certeza que podia salvar o mundo, antes de ele me desabar. Mas também sabia que eu tinha fases de clausura. Que fechava meu mundo em mim mesmo, fases em que minha felicidade era me sentir auto suficiente.
Ela sempre vinha puxando conversa, desde a primeira carta e o primeiro corte que ela me deu. Nesse sábado, ela chegou toda prosa, sorrindo e querendo conversa:
- E aí, como vai? ela se chegou, me beijando as bochechas.
- Tudo certo, e aí?
- Tudo certo mesmo?
- Todo mundo tem seus problemas, né. Mas a gente vai levando como dá.
Ela tentou uma piadinha pra me animar: - E tá dando muito ou só levando?
Sorri amarelo, virei num gole aquela dose, e olhei fundo nos olhos dela: - Não se importe tanto comigo. De verdade. Eu sei que pode parecer doloroso… É doloroso, mesmo. Mas pra que tentar roubar de mim a minha dor quando e sofrer no meu lugar?
Ela sorriu com o canto da boca, abaixando o olhar. Pediu um marlboro vermelho e foi conversar com o Sebastian que cuidava de limpar as mesas do lado de fora do boteco.
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