Ressuscitas?

Meu amor morreu. Subiu aos céus em procura dos seus e sentou-se à direita de Deus Pai Todo Poderoso, querendo julgar os vivos, os mortos, os moribundos e principalmente aquela que tinha lhe atirado a última pá de cal.

Meu amor morreu e subiu aos céus para ser cortejado lá como nunca fora aqui. Falavam de sua felicidade e alegria, sua euforia matinal , suas canções em jogral e seus post its na geladeira. Mas Deus Todo Poderoso, criador do céu e da terra, do alto de sua cadeira de balanço real, o chamou para uma conversa de pé de ouvido:

  • Brow, seguinte. Não gosto desperdiçar amor.
  • Oi?
  • É, não gosto. Não te falaram de Adão e Eva?
  • Aquela história malandra de uma cobra na maçã, não é?
  • É, por aí. Mas o esquema é que não gosto de desperdício. Logo, você tem 7 dias para querer voltar. Se for afim, ressuscita. Se não, tu fica por aqui mesmo, valeu?

Enquanto os dois estavam nesse tititi, eu, como viúvo, velava aquela história. Revia fotos, notas espalhadas por cadernos e gavetas, apelidos. Revirava as infinidades e formulava conceitos sobre a forma que tudo tomou. Do que morreu esse amor? Afogou-se em mentiras? Em traição? Resolveu pelo suicídio por ter concorrência? Ou foi envenenado pelos outros, invejosos? Meu amor estava lá, morto, e eu não tinha um por quê.

No céu, ele ainda teretetiava entre os anjos. Contava suas histórias em verso e prosa até que O Cara lhe chamou para perto da cadeira de balanço novamente:

  • Você tá ligado que eu sou onipresente, não é?
  • Sei sim Senhor.
  • Então sabe que eu escutei as suas histórias e….
  • ISSO É FALTA DE EDUCAÇÃO! – berrou o amor – SE QUISESSE, TERIA TE CONTADO!
  • Como se eu não soubesse, não é mesmo? Respondeu Deus, e continuou: Mas isso não vem ao caso. Importa que ouvi. E eu sei muito bem como elas realmente aconteceram…
  • Aff…, suspirou o amor.
  • É… Sei que grande parte delas nunca aconteceram, que você tem criado em sua cabeça algo muito diferente da realidade.
  • Não, não! Coração é coração, cabeça é cabeça. Não vem querendo me culpar pelas invenções que os outros colocaram em mim!

Deus, todo se fazendo de paizão, comprava aquela história e continuou falando:

  • Então, se é assim, o que você já chegou a amar?
  • Conceitue amor, Chefe.
  • Vamos lá então: verbo transitivo indireto. Representação fonética para suspiros, anseios, felicidade e outros predicados aí.
  • Olha, diz que já. Eu assim eu achava. Mas quando eu cheguei aqui percebi que ainda me faltava alguma coisa. Por exemplo, o Gabi – anjinho querido ele não é? – veio me perguntando como é suspirar e não sentir os pés tocarem o chão, levitar de amor, ou como era encostar dois corpos no inverno e sentir todo aquele calor subindo entre os dois, e eu vi que vivi um pouco disso, mas nunca com reciprocidade.

Publicado

em

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *