Quando a Negra Li começou a sussurrar o mantra junto com o Skank, eu tive que começar a chorar mais uma vez. Foi maior do que eu pois ainda contempla a realidade, ainda que parcial. Eu ainda penso nela. Eu ainda gosto dela.
Enquanto a música se vaporizava pelo ambiente, tomando o ar como o suspiro de um narguilé, as memórias vieram. E por algum motivo as memórias ficam, um vape fazendo a cabeça.
Já de cara a cabeça colou no dia em que ela me abriu uma camisa de botões de pressão que eu usava. No meio da balada. Eu gordo, suado, envergonhado, burro. Ela veio rindo, abriu minha camisa como quem a rasgava e saiu com outro cara enquanto eu me envergonhava por não ter a atitude que os dois esperavam. Isso ficou colado na memória, preso com silvertape, aquelas fitas que mesmo quando você tenta arrancar depois de um tempo a cola fica ali, juntando sujeira para lembrar de um lugar onde algo já esteve grudado.
E sentando aqui para colocar essas palavras pra fora, veio o dia que ela me presenteou com um livro meu, editado, equilibrado, convidando para escrever novas histórias na estrada. E eu boicotei isso. Eu deixei o livro de lado. Eu deixei as histórias de lado. Mas ainda assim, numa noite como a de hoje, quando o rosto incha ao ouvir que ainda gosto dela, eu sei que a escolha não foi errada. Não a escolha atual, ao menos.
Eu me escondi de mim. Deixei de encontrar o que eu gostava. Aprimorei o desencanto enquanto a vida passava na minha frente. E creio que a pior parte foi conviver nela, com meus sonhos e minhas decepções.
Por isso estou aqui, nesse pedido de desculpas para mim. Por ter me escondido dos meus sonhos para buscar os sonhos dos outros. Por desistir de encontrar o que me faz feliz para tentar fazer os outros felizes. E ficar sempre só na tentativa, porque ao invés de ajudar eu atrapalhava. Eu era o corote do alcoólatra, o ponto fraco e o ponto cego. Tentava fazer brilhar ligando uma lanterna mas usando meu corpo para criar sombra.
Quando recebi o bilhete de separação escrito apenas “obrigada” eu não soube o que fazer. Quando ela falou que a gente precisava encontrar a felicidade individual, eu não soube o que fazer. Ainda que tudo fizesse sentido.
Agora eu preciso ser feliz comigo. Algo quase ambíguo, mas é hora de pensar com o umbigo. Ainda que ao olhar pro céu as músicas mais bregas continuem aparecendo no ouvido.
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