Beirando os 40 me sinto ainda um jovem de 20 e poucos. Não na cara, por óbvio. Os fio brancos, as rugas, as olheiras, nada disso permite pensar que eu ainda não tenha ultrapassado o auge da vida. Já ficou pra trás.
Não eram nem 6 da tarde, mas entre nervos e informações, vocês foram se chegando até mim. Uma revoada de andorinhas ao por do sol. Ou um bando de sabiás recortando o Parque Barigui ao som de uma moto se aproximando. Vocês chegaram audíveis, cantantes. Vocês chegaram plenas e formadas.
Mas eram 6 da tarde de um dia merda. Um dia nervoso pela vida e pelo excesso de informações. Sempre os excessos. Ainda que se evite as drogas, mesmo as recreativas, os excessos são a força motriz da sociedade. Afinal isso é o capitalismo: se buscar o excedente, extrapolar o excedente, exceder tanto ao ponto do teu excesso ser a falta para outro. No meu dia, falta de um lado, excede por outros. Uma merda.
Uma merda tão grande que eram quase 6 da tarde e o corpo reclamou tremendo, pedindo paz. E paz que eu poderia dar eram alguns minutos de descanso antes do sono profundo da noite. A profundidade dos buracos das ruas de Curitiba, que você pode torcer o pé mas não são suficientes para afundar um corpo. Porque também o excesso faz o sono raso como os buracos. Mas por uns minutos de paz a quem reclama, o corpo deitou. Foi quando vocês chegaram.
Chegaram fabulando a crise que fazia tremer. Os anos vividos e a suposta falta de conquistas. A expectativa social versus a realidade do adulto de amadurecimento tardio recheado de decisões equivocadas, como essa frase gigante que não diz nada. Aproximaram-se de asas abertas, dando rasante e rindo da condição, mostrando que tudo estava uma merda, mas que tudo bem.
A cabeça tentou fotografar cada uma de vocês antes de desligar, mas apenas a ideia de vocês ficou marcada. A essência. Mas a beleza poética que vocês formavam juntas, essa se perdeu. E tudo bem. Elas servirão para que outras voltem a se aproximar.
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