
Eu estava sentado no meu canto. Há quatro meses não saia de casa. No sentido figurado, logicamente. Saia e me divertia do meu modo. Mas nunca procurava alguém pra estar comigo. Estava num período de fútil vida, onde me importavam os detalhes, e não as grandes obras.
Sentado, no meu canto, alguém resolveu me abraçar e me tirar pra dançar. Cadeiras duras eu tenho e sempre deixei isso bem claro. Mas mesmo assim aceitei o convite e me deixei bailar. Com o passar das músicas, a nossa cadência foi se equivalendo, e lentamente foi criada uma bela sintonia. Assim, a cada festa, sempre estava eu e meu par num dançar sorridente. Não frenético, sem grandiloqüências. Apenas dançávamos e sorríamos. E bem dançávamos. De forma complementar.
Mas – sempre existe um “mas” nas belas histórias – um dia os passos não se cruzaram. Eu mudei meu andamento, a minha música. Precisei adiantar meus passos, mudar o rumo da minha valsa, trocar o samba simples pelo tango, sabendo que meu par não me acompanharia. Por enquanto, a escala dele ainda é ascendente. Ainda tem problemas pra nascer, pra morrer, e que hoje eu não posso auxiliar. São pequenos demais pra mim, e grande demais para ele. Mas um dia estaremos novamente no mesmo nível. E então poderemos dançar novamente enquanto Sal toca sua tuba, e Dean marca em seu pé a cadência de nosso jazz.
(20/10/2006)
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