My only friend, the end¹

“Simpatia? Modéstia? Delicadeza?”. Em alto tom ela gritava, esperneava enraivecida. “Só me explique de uma vez por todas os porque de tudo isso! Cartas, telegramas, e-mails, telefonemas… Pra que? Pra chegar ao fim e borrar as calças? Pra olhar pra baixo envergonhado toda vez que tem devia me encarar de frente? Ou isso tudo é só pra você continuar plagiando Kafka, e sair por aí falando que, para escrever sobre dor, é necessário viver essa dor; que para ser escritor, é preciso viver na fadiga, viver na lama e no caos. Daqui a pouco você larga tudo isso e vai ser igual ao Charles. Bebendo vinho barato, alugando pulgueiros no centro sujo de Curitiba, vai começar a fumar, a conviver com todas aquelas putas sujas que a gente encontrava enquanto eu tinha coragem de andar de mãos dadas com você por essa cidade. Sério. De verdade. Suma!”.

Eu, sentado no banco oposto deles enquanto meu café esfriava, fazia de conta que estava concentrado nos cadernos de cultura dos péssimos jornais que temos na capital européia do Brasil. A cena era doentia. Ela mirrada, pequena, com a face avermelhada e jorrando fogo contra aquele homem corpulento, que se encolhia a cada palavra. Ao fim do monólogo, ele de cabeça baixa pediu a conta e se dirigiu ao caixa. Deu as costas e, entre lágrimas e um frouxo sorriso, foi embora. E ela ficou ali, sentada, embasbacada. Jurava que passara um tempo com um homem. Mas, triste, viu que ele não tinha bolas para tanto. E queria voltar atrás em cada palavra, em cada ato, e renovar as juras de amor que um dia tiveram. A potência infinita que teve fim sob a garoa fina que povoa as manhãs curitibanas.

Fiquei sentado, sorrindo, enquanto tocava ao fundo a introdução mais dolorida das letras de Jim Morrison: “riders on the storm”

¹ The Doors – The end


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