Verso e Anverso

Ontem me encontrei na rua. Olhei de relance e me vi em minha frente, usando meus jeans velhos, grudados às canelas, sobreposto a um converse já surrado de tanto uso incontinente. Bateu aquela saudade do passado quando ao espelho presenciava o futuro se aproximando. Os sapatos lustrados, as camisas bem passadas ao lado das calças de corte reto, algumas gravatas, de coleção ou não, uma caixa com graxa, pano e escova no fundo do armário, contas de água, luz telefone e condomínio, prestação do carro, consórcio…

Estava eu ali na rua, caminhando com uma mochila nas costas, cabelo tingido com várias cores sobrepostas, sem qualquer definição de qual era a cor original – e nem mesmo qual a atual. Estava caminhando à toa como se puxado por alguém, andando mole, desinteressado, destoando do mundo à minha volta. Ali, passeando pelo centro entre tantos ternos e vestidos que caminhavam como se marchassem pela da Rua XV atrás do ponteiro do relógio que nunca deixava de andar, eu vivia meus 16, 17 anos. Dúvidas sobre vestibular, sobre qual curso optar, qual universidade cursar. Aquela idéia de não deixar para trás a família formada na escola, a comilança no meio das aulas práticas, os vinhos da hora de almoço que se esparramavam pelo uniforme.

Ontem eu vi o que eu fui. Sorri para mim, e saí caminhando adiante, já sendo parte do que me anuncia o futuro.


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