Momentos

Eu era uma criança que ainda não sabia das coisas. Acreditava que tudo era pra sempre. Que aquele cara barbado que me ninava ia seguir comigo até eu voltar a viver só deitado, e ia cuidar de mim, me carregar no colo, contar histórias. Ainda acreditava que dor era uma coisa passageira: um joelho raspado, uma unha mal cortada, o dedão esfolado por jogar bola descalço. Inveja? Rancor? Não tinha nem idéia que isso existia. Eu jurava que a menina do outro lado da rua só conversava comigo pra me convencer a brincar de boneca com ela no final do dia por não ter outras amigas, sem imaginar que até hoje ela ainda escreve meu nome em seu diário. Era uma época em que eu não escolhia meus amigos, e todos que estavam comigo eram tão bons juntos quanto sozinhos. Ninguém estava do meu lado por eu ter uma bola ou um carrinho novo. Tanto fazia quais eram os carrinhos, aliás. Imaginávamos que os coquinhos que caiam da árvore, ou mesmo as tampinhas das garrafas de refrigerante, imaginávamos que eles eram bólidos ultra velozes de fórmula um: Piquet, Senna, Mansel, Patrese, Boutsen, e tantos outros pilotos que dirigiam seus carros, e não apenas corriam como hoje. Fabricávamos pistas diariamente, numa mistura de motocross e autorama que passavam da imaginação para o parquinho em muitas tardes. Uma época em que eu não pensava que os meninos mais velhos destruíam o que era nosso por diversão, mas apenas descuido – afinal, eu sempre fui muito estabanado nessa vida.

Era uma época em que pipi e popo nunca foram apelidos pejorativos – era no máximo um jeito de falar das minhas vontades naturais. Jamais seriam palavras que não podiam ser faladas por uma criança. Criança… ali, andando de cuecas pela casa, e todo mundo rindo. Ninguém para contrariar e dizer que aquilo era impróprio, falta de educação. Eu ali, pequeno, descalço ou andando só de meias, sujando todas as minhas roupas num único dia, e todos achando tudo divertido.

Mas quando eu me tornei um no meio desses todos, eu vi que quase nada disso tinha a mesma graça. Que as minhas cuecas não eram mais apropriadas para desfilar pela casa. Que sujar a meia ao andar somente com elas não tinha nenhuma graça. Que pipi e popo não eram só nossas necessidades fisiológicas. E que toda a graça da vida se perdia em busca de dinheiro. De amores. De alegrias. Vi que aquela delicadeza infantil perdia fundamento. Que ser bom não era o suficiente para ser bom. Faltava esperteza, swing, gingado. Malandragem.

E daí fico pensando no que eu era. E de como tudo aquilo parece permanecer em mim pra sempre. Fora os medos dos tombos maiores, os amigos menos amigos, e o cuidado que vai mudando de pessoas. Mas ainda pareço “a criança que ri na rua” ¹. Ainda que meu amor não seja mudo.

¹ Fernando Pessoa – A criança que ri na rua


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