Cansaço

Eram cinco da manhã quando eu resolvi me levantar. Fazia pouco mais de meia hora que tinha chego em casa, esquentado o café e colocado meus chinelos depois de mais um dia cansativo: 15 horas trabalhando, entre ruas, carros, mercado, bar, mercado, contas, músicos, instrumentos, desce cabo, sobe cabo, contas e um sanduiche na padoca 24 horas, onde queijo e porco se misturavam no prato como se fosse meu almoço.
Cheguei em casa passando das 4 da manhã, preparei um café e me banhei enquanto o cheiro invadia os cômodos do apartamento. Não sei se o banho quente ou o café com leite e mel, mas um dos dois resolveu me despertar. Cheguei em casa agoniado, pés doendo, corpo cansado, vontade louca de me jogar no quarto e só acordar 8 horas depois. Mas a sujeira do meu corpo não me deixavam e a lembrança daquele queijo burger  me pediam algo quente para acalmar o estômago. Por isso optei tanto pelo café com leite como pelo banho.
Deitei já com o coração aquecido, sorriso no rosto de fim de dia, e sono estampado entre as olheiras. Deitei com o ombro direito voltado pro colchão, o outro levemente arqueado, um braço auxiliando o travesseiro e o outro tentando achar um ponto que se aconchegasse. Não encontrou. Inverti as funções: ombro esquerdo no colchão, direito arqueado, braço de travesseiro, olhos fechados. Cadê o sono?
Foram 20 minutos entre um lado e outro. Desistia e virava o umbigo pro colchão, mas meu pescoço reclamava. Apontava a barriga pro teto, mas me sentia desconfortável. Vira, desvira. Uma agonia que lentamente foi evacuando meu sono, levando-o embora junto com a minha paciência comigo.
Desisti, coloquei a calça que tinha usado por 15 horas e que estava ali, tomando um ar pra ser usada no dia seguinte, um tênis que me deixa com cara de tio que joga tênis aos fins de semana, a camiseta que estava usando pra dormir e resolvi caminhar pelo bairro. Nunca tinha feito isso nos dois meses que morava ali, mas essa falta de sono me fez pensar em caminhar umas 4 quadras, cansar um pouco, libertar a serotonina e voltar a dormir.
Desço na calçada em frente ao prédio e avisto um carro estacionado, luzes desligadas, e a porta do passageiro aberta. Acho estranho, e me direciono pro lado dele. Estava a duas quadras de mim, e qualquer movimento estranho eu poderia fazer de conta que estava indo em outra direção. Não conheço a cidade, mal entendo o bairro em que moro, e resolvo caminhar de madrugada por ele. É muita burrice, eu sei.
Vou chegando no carro, e nada de alguém se manifestar por ali. Pensei que podia ter sido furtado, levado o som e largarem a porta aberta, mas fiquei do outro lado da rua, com as mãos no bolso caminhando como quem tinha uma direção fixa. Não tinha. Só queria me cansar um pouco e voltar a dormir. Mas eu gostava de fazer tipinho. Era minha forma de expor minha qualidade de ator – qualidade inexistente, por óbvio.
Ao chegar a alguns metros do carro, vi alguns vultos lá dentro. Não havia isofilme, não havia iluminação interna, nem embaçamento nos vidros. Entendi ali o porque das portas abertas. Ali, duas pessoas tentavam formar uma só, atrapalhados pelo volante do motorista, e sem baixar o banco para ampliar o espaço. A porta aberta era para não embaçar o vidro, entendi, e para facilitar a minha da visão e a do vizinho do terceiro andar, que da sacada apreciava tudo enquanto fumava seu cigarro. Olhei assustado pro carro, e me assustei quando percebi aquele senhor observando as cenas. Quando o olhei, ele apontou o dedo indicador sobre a boca em sinal de silêncio, e eu me pus calado em meu caminho.
Rodeei a quadra e voltei pra casa, semi cansado, sem sono, com inveja e vontade.

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