Você me avisou: vou ali comprar cigarros. Aquela desculpa imbecil que um dia falamos por nenhum dos dois fumarem, e que usaríamos quando resolvêssemos que era hora de voltarmos a viver no cada um por si. Era como aqueles dois tapinhas nas costas e a frase padrão “você é legal, uma pessoal especial, mas…” e no fundo ia rolar um ‘não sou afim de você’, ‘ainda gosto de você mas não sei se é isso que quero pra minha vida’ ou ‘putz, desculpa, mas não tá mais rolando’.
Você tinha passado por isso uns seis meses antes de me conhecer. Eu há um pouco mais. Afinal, pé na bunda é algo comum de se ver por aí. E fácil de se escrever sobre. Quantos você leva antes de acertar? E quem não acerta? E quem acha que acerta e, tempos depois, leva um chutasso homérico ou um par de tiara do show do ACDC, aquele chifre reluzente que chama a atenção por onde passa e você nem percebe que está ligado? E tem gente que vem querer criar grandes histórias de amor…
Quando você fechou a porta eu estralei os olhos e todas as imagens voltaram. Da nossa relação, dos passeios, fotos, entrevistas com família, aprovação do sogro, desagrado da tia mais velha, viagem, cheiro de cigarro na casa dos seus pais e minha crise de renite comendo solta por causa da sua tia velha e solteira que fumava os tubos diariamente, bebedeiras e bandalheiras pela noite, crises de ciúme minhas, suas, mudança de hábitos, compra de um novo colchão, instalar um espelho grande atrás da porta do quarto, troca da assinatura da NET pela prestação de uma geladeira nova com cara de retrô…
Olhei na porta e a chave ainda balançava. Eu acompanhava com os olhos aquele balangandã como se fosso o seu andar, suas pernas e todo swing do seu quadril ali, naquelas chaves, de um lado para o outro. Em seguida, a maçaneta da porta se mexeu e você entrou com um pacote de 10 maços de LM, que jogou em cima do passa pratos, uma mala de couro, e sua tia logo atrás. Devo ter feito uma cara de desgosto por ter esquecido que receberíamos visita pro feriado de finados.
Deixe um comentário