Desci as escadas correndo. Eram apenas três lances, mas o carteiro estava na correria com o Sedex 10 e pediu pra eu agilizar. Passavam das nove e meia e eu ainda estava de pijamas. Joguei a calça que eu havia usado na noite anterior, calcei meus chinelos, coloquei a camiseta do avesso e desci com a gola me atrapalhando por estar de trás pra frente.
Quando ele apertou o interfone, eu levantei assustado e, atendido e apresentado, fiquei apreensivo. Contas não são enviadas por Sedex, nem multas. Nunca o carteiro passa antes do meio dia e muito menos antes das dez. Não tenho contatos comerciais atuais e tenho me isolado cada vez mais. Salvo o cartão de crédito, luz e telefone, correspondências que eu recebo são um telegrama no dia do meu aniversário da empresa que eu trabalhava e um cartão de natal que minha tia-avó encaminha anualmente. Fiquei tentando imaginar o que acontecia enquanto procurava minhas roupas, parte delas na sala, parte no banheiro, e tentava abrir a porta.
A pressão do carteiro foi enorme: “Senhor, temos uma encomenda para este endereço. Poderia descer para retirá-la? Temos apenas 3 minutos para sair daqui, pois ainda temos quatro endereços neste bairro para cumprir nossa meta.” Ao que percebi, meus cumprimentos ao atender o interfone ou foram muito grosseiros, ou muito sonolentos. Acredito que tenha a capacidade de juntar ambos, mas ele não teria tanta paciência ao responder. Acredito eu.Abri a porta e me deparei com a senhora que limpa o prédio todas as manhãs. Estava passando uma mistura de água sanitária e alguma coisa, com o piso todo úmido e meus pés sambando descontroladamente em busca da escadaria. Um escorregava pra esquerda, outro pra direita, os braços balançavam em círculos buscando equilíbrio até conseguir me apoiar no corrimão. Ouvi uma risada abafada e desci, com vontade de olhar pra trás, sorrir para a Dona Vera com aquela cara de descrédito, só para vê-la envergonhada ao voltar.
Eram apenas dois lances de escada de um prédio onde dizem que moro no terceiro andar, mas não existe térreo. Aquela descida em correria, o piso molhado, meus chinelos com solado despreparado para aquele tipo de situação, já carecas após quatro anos de relacionamento e pedindo descanso, tudo eram riscos para não chegar inteiro até o primeiro andar. Ou térreo em prédios normais. Apertei o botão para que se abrissem os portões, e pinoteei pelo hall de entrada buscando cumprir com o prazo me dado.
“Bom dia e desculpa a demora, mas não estava esperando correspondências para hoje, senhor”. O carteiro,com um olhar que misturava a raiva com meu atendimento inicial e a vontade de gargalhar pela camiseta toda aos contrários, me entregou uma caixa do tamanho de uma caixa de sapatos, e pediu meu RG.
Olhou para minha foto e comparou com a cara recém acordada que lhe atendia, enquanto eu olhava aquela caixa querendo descobrir o que poderia ser, já que o destinatário eu desconhecia: Maria Angélica dos Santos, que desenhou na caixa alguns corações partidos que se esconderam embaixo dos adesivos dos Correios. Quando lia o endereço que deveria ser o meu, o rapaz me questionou: “Doutor, teu apartamento é o 302 mesmo, não é?” Imaginei o carteiro me olhando, camiseta do avesso, chinelo arrebentado, calça toda amassada e que provavelmente estava com o zíper aberto, e me chamando de “Doutor” pela mania que eu tenho de apresentar minha carteira profissional ao invés da de identidade. “Moro sim senhor”, respondi, tirando os olhos do endereço e focando em meu interlocutor.
Ele retirou a caixa da minha mão, olhou o nome do destinatário e comparou com a sua ficha, e retrucou: “Esse ‘Carlos Eduardo Viamão’ mora com o Senhor?”. “Não, nunca ouvi falar, e pelo menos nos últimos doze anos ninguém com esse nome morou nesse endereço”.
Pediu desculpas e, sem esperar qualquer resposta minha, virou-se. Já tinha perdido sete minutos e não havia entregue a quarta encomenda do dia. O número que ele olhava era do prédio ao lado do meu, mas não houve tempo de avisá-lo. Sua pressa em cumprir com as entregas dentro do prazo do Sedex 10 era maior que sua vontade em cumprir com as entregas.
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