Despedida de Solteiro

Cheguei em casa de manhã, aproveitando pra trazer pães, leite, mortadela e queijo prato pro café da manhã. Nunca curti essa idéia de mamãozinho papaia, suco de laranja e queijo minas com torradas. Por mim, encarava era um pão com ovo logo cedo, e se possível com bacon. Mas diz meu médico que é pra controlar o colesterol, que a pressão está subindo, que é bom eu trocar o sal por ‘sal light’, comer frutinhas de manhã, batidinha de maçã, de morango. Ainda falou que era pra optar por ‘carnes brancas’, com baixo teor de gordura, grelhadinha, logo depois de me recomendar um almoço com base em alface, tomate, rúcula, agrião e a puta que o pariu de legumes e verduras de tudo quanto é cor e sabor, ainda que no final tudo não passasse de um monte de mato que a gente dá pra porco, galinha ou gado quando está no interior visitando as fazendas da família. Quando ele falou em carne branca me veio na cabeça aquela costela assada que vai esfriando, a gordura escorrida ficando branquinha, pra comer com pão uma meia hora depois de tirá-la do fogo, morninha, mas saborosa, com aquele sebinho branco escorrendo e melando a barba. Desisti desse médico depois da imagem da carne branca.
Antes de entrar em casa, no elevador, dei aquela geral na fisionomia. Arrumei a camisa pra dentro das calças, desamassei o que dava do blazer, escondi a gravata toda babada, procurei ironicamente se haviam marcas de batom no colarinho, tirei a chave do bolso e saí, empurrando a porta do elevador com toda a masculinidade que uma despedida de solteiro regada a uísque, cerveja e desfiles pode proporcionar. Encostei a chave na porta com um certo pavor: eram 7:30 da manhã e minha namorada me esperava em casa pra gente ir na feira comer pastel e tomar um caldo de cana matinal. Padrão de todo sábado: açúcar + gordura pra viver loucamente o final de semana. Ainda bem que o médico com quem me consultara nem lembrava mais da minha existência. Eu ali, com essas idéias na cabeça, misturado um suor frio pensando em alguma desculpa pra dar, enquanto girava a chave e empurrava a porta.
Sempre usávamos a porta da cozinha. Era meio padrão em todo o prédio: tinha um acesso mais fácil que a entrada principal, que mantinha um corredor entre a porta e a sala que, ainda que curto, complicava a presença de duas pessoas quando se recepcionava alguém. Coisa de arquitetos: se fosse um engenheiro, nada disso existiria. Só um vão livre, uma divisório pra quarto e banheiro e pronto. Mas daí os arquitetos chamariam isso de loft ou algum nome inventado por quem come carne branca e saladas e frutinhas no café da manhã.
Entrei na cozinha com uma idéia fixa na cabeça: vou entrar, tomar banho, e acordá-la para irmos pra feira. Se ela perguntar, falo que dormi no sofá porque cheguei tarde e não quis acordá-lo. Desculpa masculina padrão número 34, presente no Manual do Homem que Um dia Descasará, Tomo. III, Ilustrado. Olhei na cozinha e a louça do almoço ainda esta ali, mas nada fora do comum. Algumas vezes ela lavava quando chegava de Foz, outras não. Dependia da raiva acumulada da semana – que ela sempre descontava limpando a casa, algo que nunca entendi.
Larguei o sapato do lado do sofá, a gravata na cadeira da mesa de jantar e me joguei no banheiro. Abri a torneira, esperando a água esquentar enquanto me acalmava um pouco. Afinal, não tinha feito nada de mais. Uma noite entre amigos, uísques, cervejas, uma moças desfilando e a gente olhando, um ou outro mais assanhado carimbando o passaporte da alegria, mas eu ali, quietinho, só dando risada de tudo que acontecia. Afinal era a despedida de solteiro do meu melhor amigo, oras. Ele, com 29 anos, tava programando o casamento pra dali há uma semana, e a gente tinha que dar o bota fora mais digno possível para ele. A ponto de, no dia seguinte, ele não lembrar o que tinha acontecido.
Entrei no box, e daí é aquele padrão: xampu no cabelo e sabonete pelo peito, sovacos, entre as pernas, pés, junior,ombros e o que dá pra alcançar das costas. Tira o sabão da cabeça e do corpo, passa o condicionador anti caspa e, cinco ou sete minutos depois, tá lá, tudo limpo e novo. Primeira secada dentro do box, segunda no tapete em frente à privada e tá tudo pronto. Só escolher a roupa e partir pro abraço.
No quarto, procuro por ela e me deparo com a cama vazia. Acendo a luz assustado. Afinal isso não é comum. Comum é ela pegar no meu pé, falar que eu não dou atenção, reclamar da louça suja e da casa desorganizada quando ela chega, reclamar da cerveja pós futebol ou dos churrascos pra assistir as pelejas da Champions, mas não aparecer na cama no sábado de manhã definitivamente não é normal.
Coloquei a roupa e telefonei pra ela. Nada. Fora da área de serviço ou desligado. Entrei nos sites de notícias com medo de algum acidente aéreo ou rodoviário, mas também nada. Dei um sorriso de alívio. Voltei pro quarto, abri a gaveta com minhas cuecas para me vestir, e tinha um bilhete dela: Obrigada!
from http://boysheartme.tumblr.com/
Foi o jeito dela de dizer que me amava, mas que tínhamos que seguir nossas vidas. Mandei uma SMS agradecendo a preferência e falando podia voltar quando quisesse. Sorri amarelado, torcendo pra ela não voltar mais, e a xingando internamente, por mais feliz que estivesse em estar sozinho sem ninguém pra reclamar dos meus amigos, pra pedir pra não ir no futebol, pra não acompanhar a formula 1, pra reclamar do meu tênis largado na sala, dos meus pêlos no sabonete, pra acompanhar nas caminhadas no parque, nas trilhas na serra, pra jantar e assistir filmes idiotas numa sexta a noite, comprar os discos da minha banda predileta.
Merda. No fim, bem que eu gostava daquela garota. 


Publicado

em

por

Tags:

Comentários

2 respostas a “Despedida de Solteiro”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *