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| Flickr (AgostoMultimidia) |
Procurei meu lugar naquele botequim. Era sempre o mesmo e o mais concorrido: no canto, entre a entrada, a parede dos fundos e o balcão. Mal e porcamente cabia meu corpanzil que cresceu tanto naquele lugar, em meio a carne de onça, costelas de porco e caldos de feijão. Sentei, apoiei as costas na parede do fundo, ao lado do relógio de algum uísque que já bebi por ali, entre uma garrafa e outra de cachaça, apoiei meu braço no encosto da cadeira, sentado meio torto, meio de lado, meio que já preparando meu campo para o jeito que eu sempre deixava aquele meu habitat.
Em seguida Reick chegou, já puxando a cadeira ao meu lado. Sempre daquela forma delicada, pedindo licença e se sentando, mesmo contra a minha cara de bons amigos. Ela tinha esse desejo de me entender entre cada gole. Queria saber da minha mudez, da minha surdez. Como podia eu estar ali tanto tempo e ficar sempre isolado, naquele ar de quem não quer conversa, e ainda assim sorrir ao cumprimentar os companheiros.
Ela já me conhecia há algum tempo. Sabia que eu sempre fui de poucos amigos, mas de grandes amizades. De doação e dor na mesma intensidade. De abraçar querendo tomar pra mim o que machuca os outros. Achava que podia salvar o mundo, antes de ele desabar. Mas também sabia que eu tinha fases de clausura. Que fechava meu mundo em mim mesmo, fases em que minha felicidade era me sentir auto suficiente.
Ela veio puxando conversa, e esse sábado ela chegou toda prosa, sorrindo e querendo conversa:
– E aí, como vai?
Se aproximou e me beijou as bochechas.
– Tudo certo, e aí?
– Tudo certo mesmo?
– Todo mundo tem seus problemas, né. Mas a gente vai levando como dá.
Ela tentou uma piadinha pra me animar:
– E tá dando muito ou só levando?
Sorri amarelo, virei num gole aquela dose, e olhei fundo nos olhos dela:
– Não se importe tanto comigo. De verdade, me deixe viver esse momento. Eu sei que pode parecer doloroso… É doloroso, eu sei, mas parece que você só quer roubar de mim a minha dor quando tenta sofrer no meu lugar.
Ela sorriu com o canto da boca, abaixando o olhar. Pediu um malboro vermelho e foi pra fora conversar com o André.

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