Vivi poucas horas no ar, em minha vida – curta, mas suficiente para mais. A primeira lembrança que tenho de embarcar em um avião é do início dos 1990, quando as passagens eram caríssimas e se economizava meses a fio comprá-las. O embarque era evento social na família, com reunião no saguão, fotos do embarque e um aceno ou na porta de entrada da aeronave, ou na janelinha minúscula onde duas ou três pessoas se apertavam para dizer adeus. Lembro dessa época que meus pais se juntavam a outras para criar pequenos grupos de consórcio com 10, 20 pessoas, para adquirir produtos eletrônicos diversos, como filmadora, microondas e outros. Dinheiro e financiamento eram coisas raras e caras naqueles dias.
Quando da viagem eu tinha pouco mais que 10 anos de idade, recém chegado à adolescência, recém apresentado ao Rock. Mentira! O Rock sempre fez parte da minha vida, desde a infância. Lembro de meu pai como fã de Raul Seixas e Alice Cooper e algumas outras bandas farofas. E Secos&Molhados. Nos 1980, pegou gosto por “Nós vamos invadir sua praia” do Ultraje a Rigor, e outros discos da banda, a ponto de, em resposta à vassouradas dadas por vizinhos que moravam no apartamento abaixo do nosso durante um sábado à tarde, tombar os falantes de seu 3 em 1 Phillips recém adquirido no Carrefour e, com o volume no máximo, colocar “Filha da Puta” do disco “Crescendo”… “Filha da puuuuuuta… é tudo filho da puta”. Não imagino como terminou tal troca de gentilezas.
Mas ainda que o Rock fizesse parte da minha infância, foi ali, após aquele primeiro vôo, que passou a fazer sentido.
Fomos visitar o primo de meu Pai, no novíssimo estado de Mato Grosso do Sul. Tudo ali era novo e as pessoas vinham de todos os cantos do Brasil em busca de prosperidade num pouco devastado Pantanal. No apartamento em que estávamos, dormi na sala e tive contato com uma novidade: televisão disponível para mim durante toda a madrugada. Não tinha essas regalias em casa – lá era 9, 10 da noite e minha mãe mandava eu e meu irmão pra cama.
Mas estava eu, na sala, um colchão no chão e a televisão à disposição durante as madrugadas. E numa delas a tela sintonizada na Globo, que na época transmitia o Hollywood Rock IV, onde tocaram DeFalla, Biquíni Cavadão, Alice in Chains, Red Hot Chili Peppers, Engenheiros do Hawaii, Doctor Sin, L7, Nirvana, Midnight Blues Band, Simply Red e Maxi Priest. Quando comento dessa transmissão, todos me falam do show do Nirvana, mas não foi o que me chamou a atenção: fiquei aficionado por L7 e Red Hot Chilli Peppers.
As meninas do L7 com sua pose Rock’n’Roll criaram em mim um fascínio que dura até hoje: mulheres de presença, de impacto, de personalidade. De gosto musical apurado. Já quando o Red Hot soltou o seu ‘Give it away’, que eu não tinha idéia do que queria dizer,me ensurdeceu. Melhor: me isolou. Me deixou vidrado no som que saia e nada ao meu redor importava.
Ao voltar para Curitiba, fui em busca de meu primeiro disco de Rock. Corria as poucas lojas que eu conhecia em busca do disco das meninas do L7 ou do Red Hot, mas não os encontrava. Na verdade, mal sabia onde procurar. Até então, discos, para mim, estavam numa sessão dentro do Jumbo ou do Carrefour, onde eu ficava enquanto meus pais faziam compras.
Fui encontrar numa loja de discos no (desde sempre) falido Shopping Água Verde. Estava lá: uma fita k7 de Mother’s Milk: seis de fora numa foto em preto e branco com os integrantes na palma da mão, Anthony Kiedis sem a saia que lembrava dele no Hollywood Rock, e Flea devidamente trajado, sem as cuecas ou fraldas que ele usou no palco do Rio de Janeiro, cobertos pelo seu music man de 5 cordas.
Comprei a fita e ouvi – e ouço até hoje – e inventava letras e significados praquele funk rock ininteligível. Mas assumo que minha primeira opção era algum disco do L7. Achava mais rock aquelas mulheres deixando de lado a delicadeza e vivendo a intensidade das guitarras e distorções.
Se não estivesse no Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, não dormiria aquelas noites com a televisão ao meu dispor, não conheceria o cine corujão, não assistiria o Hollywood Rock, nem o programa ‘Cocktail’ do Miele (tá, esse eu conheceria cedo ou tarde), e hoje seria mais um ao som de Luans Santanas ou Lenines.
Obrigado, Varig.
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