Minha cabeça desceu a rua em espiral, chutada do alto do morro por um magrelo descalço, de bermuda suja e camisa do flamengo. Ele não diria, mas creio que era falsificada, comprada no melhor camelô oficialmente postado na Praça Rui Barbosa. Enquanto caminhava pela Nossa Senhora da Luz, viu aquele resto de mim ali, inútil, descartado, um nada sem fisionomia, odor ou expressão. Com desdém ou asco, não me lembro exatamente, pois seu pé me veio no lobo occipal, quase na intersecção com o temporal direito, o que prejudicou melhores observações, seu chute, meio de três dedos, me fez rodopiar até a Schiller, escapando por alguns minutos de um encontro mais drástico com o trem da ALL que vivia a me prejudicar os sonhos naquela região.
Descia em uma rota inexata. Dependendo de qual parte de mim tocasse o solo, tomava uma direção diferente. Se o nariz estava apontado pra esquerda, então ao tocar-lhe o chão todo o resto iniciava uma rotação à direta, até que encontrasse o meio-fio, ou algum outro obstáculo, que me faria mudar meu ponto de vista. E assim segui, ora alterando por minhas orelhas, por meu queixo, ou por minhas bochechas.
Parei na altura da Schiller por falta de impulso – uma leve subida se iniciava. Fiquei encostado numa entrada que dava para uma rua de paralelepípedos bipartida, onde crianças se divertiam entre elas, passando por mim com skates e bolas de basquete, sem que notassem nada de estranho no ar. Frustrei-me mais um tico.
Mas nada venceu a frustração que aquele chute me proporcionou. Acostumado com as pelejas semanais, com um uso sutil dos pés nas bolas de quarta e domingo, um chute como o que levei poderia ser encarado como um erro ou uma afronta ao futebol bonito que jogávamos. Foi um chute delicado demais. Um chutinho que se dá num momento de fair play, quando se sabe que o adversário está de frescura. Mas não era o caso.
Ali eu estava jogado no quarto final do segundo tempo. Estafado, corroído , com câimbras espalhadas pelos poucos músculos que me restaram. E ele me observa e simplesmente empurra com um chutinho mequetrefe, sem firmeza, vontade, vigor para mostrar seu anseio de me empurrar com vontade pra fora dali. Uma pegada estranha, lado externo do pé que apontava o bico para a direita e me empurrou para a esquerda. Meio que um ‘deixa-rolar-e-espero-que-pare-aqui-perto’, me pareceu. E desci, desci para perto, mas não perto o suficiente para que ele tivesse qualquer interesse em me resgatar dali.
Minha vontade era de chegar pra ele e berrar “Se é pra chutar, chute com força, porra”. Não que eu queria parar longe, mas ter certeza que não me quer por perto.
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