Arcos Dourados

– A alegria das festas de aniversário. O sorriso amável, os abraços aconchegantes, os limiares entre pessoas amigas e os interesseiros de plantão. A beleza de um olhar multicolorido que se cruza com o seu. Parabéns, parabéns e parabéns.
Parabéns por mais ou ano de vida. Parabéns por ter os amigos reunidos. Parabéns por largar a desventura neste dia. Parabéns pelo caráter. Parabéns pela vitória. Pela sobrevivência.
Mas se amargo fosse, questionaria: Parabéns: menos um ano de vida. Parabéns: tantas bocas e poucos corações. Parabéns: o império da falta de ética. Parabéns: você só é melhor que alguns derrotados.
A dicotomia que a vida nos impõe não permite aceitar que os opostos convivem em si: que o feio e o belo se amam, que o gordo e o magro se complementam, que ódio e carinho se assemelham. Que vida e morte são a mesma coisa, que noite e dia são a mesma coisa…

– Ei, André! Tá Maluco? Que lesera é essa? Papo estranho…

– Como assim? Poxa, analisa comigo.

Entraram de novo naquela conversa. Na verdade, naquele monólogo. Um gordo de óculos, pálido, barba por fazer, cara de estúpido, calça justa nas canelas e camiseta listrada, analisando a vida de merda que leva, enquanto espera para entregar pra caixa-atendente o pedido que fez na fila para uma sub-atendente novinha, corpinho ainda por crescer, que anotou os dois sandubas de cheddar, a coca de 700ml, batatas e tortinha de sobremesa.

Nisso, o magrinho meio zoado que estava com ele, de camisa xadrez e tênis da década de 80 pega aquele balde de coca e entrega pro amigo:

– Bebe, enche a boca e para de reclamar. A vida em geral é sempre uma bosta, você tendo ou não tendo o que quer.
 

Percebi que esse era o dia pra encontrar outro restaurante que atendesse de madrugada, quando eu volto pra casa semi bêbado, esfomeado e sozinho.


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