Hoje deu vontade de escrever.
Deu vontade de lembrar dos momentos em que corria pela casa, sem me preocupar com o chamado do pai para acordar cedo. Deu vontade de contar estrelas no céu e pedir à primeira um grande amor. Deu vontade de saber se mal e bem se confundem, e se o bem vence o mal porque as pessoas optam por este.
Tenho vontade que de lembrar rapidamente da tristeza do final das férias. E do início. Da despedia dos colegas de classe, do abraço na menina que eu sonhava namorar, mas nunca tive coragem para assumir. Olhar nos olhos verdes (ou azuis, ou castanhos – a cada semana meu gosto mudava), e entregar a lembrança que eu comprara no recreio. Da despedida dos amigos da praia, aqueles que vemos somente em feriados e com quem aprendemos tantas coisas, dos amores de verão, dos versos cantados ao violão e das estrelas contadas na escuridão, onde eu me escondia a cada aprontada.
E essa vontade de escrever não é vontade de voltar ao passado. De lembrar da adolescência que enfim acaba, que ainda berra dentro de mim, mas que tento abafa-la em favor do meu crescimento. É uma necessidade no caminho da evolução. Lembrar o primeiro beijo, os primeiros carinhos romanescos, o primeiro livro e o primeiro choque. Lembrar do primeiro amor, do primeiro jogo, da primeira banda e ou do primeiro acorde. Lembrar o que passou é necessário para entender onde vou chegar.
É bom lembrar que muito aconteceu em tão pouco tempo ¿ afinal, o que são 20 e poucos anos para o mundo? A evolução é grande, mas pouco se sente se comparado com a imensidão que antecede. O conhecimento adquirido é tão pequeno se comparado ao que está disponível mundo afora. E mesmo assim, com tão pouca idade, tantas pessoas acham-se tão grandes. Nessas horas que eu agradeço pela minha pequeneza.
Lembrar o segundo grau também é bom. Lembrar das primeiras provas coladas, a primeira coleção de beijos, os primeiros shows, as primeiras peças teatrais. Era a época em que não perdia um Festival de Teatro. Era a semana toda enfurnado no teatro, por quatro anos… Até o início da faculdade, onde tudo mudou. Mudaram-se os amigos, as pessoas, o modo de conviver. Mudou o comportamento, o estereotipo, o modo de agir. As palavras mudaram, e por vezes emudeceram. Os relacionamentos amadureceram, e velhos amores nasceram em morreram em anos ou em minutos. Tudo é rápido, ainda.
Mas bom é saber que por hora ainda sou criança. Que em poucos dias não serei mais capaz de chorar ao ouvir músicas do balão mágico, de sorrir ao ver a nave Xuxa partir, ou o Dino entrar em casa, próximo à hora do almoço e gritar: ¿Querida, cheguei!¿. Quero aproveitar os últimos suspiros da minha infância que tem de morrer, jogar videogame com meu irmão, futebol com meus amigos. Brincar de se esconder nos prédios da vida, pra um dia me encontrar igual, com o mesmo espírito, mesmo que mais velho.
Quero viver intensamente os dias que precedem a minha formatura, para que enfim possa olhar para trás e dar o primeiro passo em favor de mim mesmo e crescer, e subir até onde o meu céu deixar. E lembrar que junto comigo grandes amigos estão deixando a vida de criança pra trás, e assumindo de vez: crescer é bom.
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