… eu vou fazer uma prece, pra deus, nosso senhor, parar de molhar…

Eu não o reconhecia mais. Mudou tanto em tão pouco tempo… Não lembro o exato momento em que tive meu ultimo contato, mas aquele que se apresenta em minha frente, com a mão estendida e um sarcástico sorriso em seu rosto não poderia ser o mesmo ser que outrora me abraçava e dizia palavras de carinho.

Ali, sentando na escura esquina onde sempre freqüentávamos, onde conhecemos tantas pessoas e levamos tantas outras, ele me fitava e estendia a sua mão. Em rotos trajes, não tinha como olhá-lo e não sentir algo. Estranhamente, dentro de mim existia apenas raiva para com aquele sujeito.

Eu não entendia ainda o porque de sua transformação. Creio que nem Kafka teria pensado nessa possibilidade ao escrever seus livros. Ali o ser jazia em si mesmo, falecendo em seus próprios odores.

Mas o ódio dentro de mim não faria com que eu esquecesse de meus defeitos. O ódio pelo erro dele não apagava a amargura que eu sentia quanto aos meus. E ali, olhando-o de longe, mas tão perto do que sentia, pude voltar atrás e lembrar que todos podem, um dia, errar. Não existe a perfeição nem nos mais puros dos corações. Porque então poderia exigir tanto?

E, assim pensando, fui corrigir aquilo que eu e ele fizemos de errados. Desculpei-me em frente ao espelho e segui minha viagem em busca do meu futuro. Só preciso corrigir no meu passado aquilo que não me faz bem. Afinal, “a tristeza é senhora. Desde que o samba é samba é assim”.


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