13.05 (21/11/2005)

Bati na porta, e pedi, triste, tristinho: minhas coisas, por favor? Todas foram entregues, devidamente embaladas em pacote do Mercadorama. Essas sacolas eram das que mais tinham pela casa, pois nós sempre iamos ao Mercadorama fazer compras. Era fácil: tinha sempre promoção de vinho, macarrão, alguns dias até molhos prontos. Chegava, comprava e comia. Rápido e prático. Sem, logicamente, esquecer de passar na locadora e pegar algum filme.

Esqueci o rádio do carro ligado enquanto esperava as minhas coisas. Maldita hora que o Zeca Baleiro começou a cantar: “Estava triste, tristinho…”. Por vezes as músicas têm o dom de tirar as pessoas do sério. E como. É a tristeza alegre que embalam as músicas, todos os dias. Que graça tem cantar que você está feliz? A tristeza é que empolga a pessoa a lutar dia-a-dia e correr atrás de algo melhor.

Mas estava com tudo a minha frente. Livros, fotos, chinelas, roupas, escovas de dente. Entregou-me tudo aquilo que eu nunca quis, e que não me importaria em ficar sem. Dentro de mim, tinha apenas um pedido: devolva meu coração… bitch. Mas sei que esse eu nunca vou reaver.

Coração você doa e não pede de volta. Você vai repartindo e entregando. E cada vez a parcela de entrega é menor. E quando você percebeu, não há mais o que repartir. Tudo é passado, e dali só jorra teu sangue, como nos cortes de Tarantino. Da mesma forma que jorram hoje os minutos de felicidade que a vida me trouxe e te levou.E em breve trará de volta, em qual forma for.


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