Ele queria um dia poder escrever uma carta de amor, um bilhete de dor, uma frase que arrancasse algo de dentro de si. Tentar interagir consigo, entreter-se. Conquistar aquilo que perdeu. Falar sozinho, sobre ou com algum amigo ou inimigo imaginário. Criar figuras mitológicas ou apenas alguma de linguagem que facilitasse o enlace entre si e seu eu interior. Tornar tudo mais prático. Respirar sem sofreguidão. Acordar de manhã sem estar com o peito cheio de peso morto. Somente deixar de ser estático.
E então levantar-se, pedir um café da manhã numa travessa com pães de queijo, um vaso com girassol e um café gelado, desses de latinha. Por seu terno e voltar ao trabalho. Empilhar-se atrás de papéis para se esconder de um mundo que ele não consegue suportar. Não estar mais “curtindo uma deprê”, mas enfiando sua cabeça no mais fundo buraco que ele consiga cavar, tentando parar de corroer-se pelos outros.
Desistiu. Continuou com seu pijama e suas pantufas, enquanto lia o jornal da semana passada formando frases com as palavras que apareciam. E sempre lia aquilo que queria ler. E sempre via aquilo que queria ver. Mas nunca abria os olhos para sentir isso.
(27/10/2006)
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