Chega de Saudades¹ (28/01/06)

A noite acaba de cair. Luzes acesas em algumas casas, televisões ligadas em outras. Passava correndo olho da sacada do apartamento. Gostava de deixar tudo desligado, sentar na sacada e observar os transeuntes. Abrir uma garrafa de vinhos tinto – sempre apreciando os sul-americanos: chilenos e argentinos… até os gaúchos por algumas vezes. Taça numa mão, um livro sobre o colo. E assim seguiam as noites.

O apartamento ficava na Sete de Setembro, ali próximo à casa vermelha que acabou queimada há alguns anos, algumas quadras além do corpo de bombeiros. Durante a noite alguns mendigos acabavam por entrar no imóvel, e em alguma fria noite curitibana devem ter deixado cair o álcool que queimavam para se esquentar. O cúmulo. Uma casa que por anos foi alugada para um bordel, aquecendo a vida de inúmeros jovens que queriam iniciar sua vida sexual na colonial capital paranaense, acabou queimada por pessoas sem nome, sem idade, sem sexo, que apenas queriam um pouco de calor. Original, não humano – deste eles já desistiram.

Ali da sacada as noites passavam rápidas. Ônibus iam diminuindo em número ao passar das horas, até não mais passarem por mais de hora. Neles apareciam apenas os motoristas, e todas as luzes internas acessas. Da janela era possível avistar os mendigos que ainda dormiam sob a marquise chamuscada em vermelho e preto. E que todas as manhãs acordavam pisoteados pelos passistas que, apressados, não se davam a olhar embaixo do nariz, além de seus pensamentos. Daquela sacada, sentando noites pós noites, escrevia. Escrevia para as estrelas, ou mesmo petições fracas, em casos oblíquos, de pouca monta. E sonhava com o dia em que deixaria de lado o terno e a gravata, e enfim aceitaria a nada abastada vida de letrista. Sonhos…. sempre verdadeiros².

¹ Chega de Saudades – Bebel Gilberto

² Roupa Nova – Dona


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