Necessidade Especial*(19/01/2006)

Hoje ela resolveu que iria me declamar poesias. Dessas que se recebe por e-mail – onde jura-se que o autor é algum jornalista renomado, ou uma pessoa que usualmente é vista nas folhas da “Caras”. Ela, com um maroto sorriso, afirma o nome de um autor que eu não sei quem foi. Mas encanto-me com suas palavras. Não as ouvi, é verdade. Ou, ainda, as ouvi pouco. Mas seus lábios estavam tão contentes ao falar, tão brilhantes…

Não sei qual foi a duração real daquela eternidade muda, mas de fato postava-se para falar as palavras de outrem. Bela, bela, bela… A voz, o sorriso, o brilho cintilante e pequenino de sua narina esquerda. Sua camisa do Strokes, seu all star “fake”, seu jeans. Tudo era lindo naquele lirismo, silencioso momento de declamação muda. E eu sorrindo, conseguindo olhá-la por completo naquele instante. Anotou meu e-mail e saiu, feliz de ter sido ouvida.

Retorno pra casa e recebo seu e-mail: a poesia.

Homem:
substantivo;
ser fictício, inanimado.
Homem…
Objeto frágil, estético e antigo.
Valor nulo no mercado.
Homem…
Sentimentalista extremo;
inteiramente humano.
Em suas veias havia sangue;
em seu coração, amor.
E no cérebro felicidade…
Ah, esse homem.
Hoje ser em extinção.

Não entendi, é certo. Não sou letrado. Mas jurava a mim que o brilho de seus lábios deveria ter sabor de morango. Só esperava que não fosse uva, mas ainda descobrirei.

* Placebo – Special Needs


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