Lá estava eu, parcimonioso, olhando meu copo vazio. Girava-o vendo as últimas gotas de gim com limão, sem tônica – o que restou de prazer em minhas mãos. Na pista, em minha frente, estava aquela linda fêmea. Pele rosada, ao menos sob aquela forte luz vermelha que incessantemente piscava para ela. Não lhe era morena a pele, isso era claro. Mas não poderia distinguir entre um branco caldo e um doente amarelo àquela hora da noite. E eu aficionado com o fundo do meu copo vazio.
Perdido em pensamentos e discussões filosóficas com o ser que me habita nas noites, não me agüentei e larguei a cadeira. Apoiei-me na mesa e levantei. Levantei com indelicadezas e vontades. E ao fundo, escutava aquele som que eu tanto gosto… I love the sound of you walking away…. you walking away. Tentei driblar-me, fugir da idéia fixa de interpelar aquele ser que incitava meus desejos mais primitivos. Queria brincar com a dama, brindar com a dama. Entender o xadrez que envolve a aproximação pelo desejo – afinal, a atração é um dos componentes do jogo sexual atual, ainda longe pelo modelo vivido em 650 depois de Nosso Ford. Como seria admirável o mundo novo…
Mas ali estava eu. Seria, pois, o cavalo no quadriculado tabuleiro do desejo. Andaria turvamente. Portar-me-ia com obstinação, em frente e a direita, e após a frente e a esquerda. Quem sabe algumas jogadas voltando os passos. Mas teria como objetivo a rainha que estava em minha frente. Bela e opaca, alcoólica. Droga – uma droga não entender os jogos de amores, sexos e paixões.
Em seu lado estava, mas ainda seriam necessárias algumas rodadas para conquistar seu posto, em razão do meu tortuoso andar. Seria a rainha deposta por seu servo; retornaria às castas menos abastadas por uma noite, e far-me-ia feliz. E far-se-ia feliz. Muitíssimo.
Pouco tempo duraram-me as idéias. Abro os olhos e acordo do rápido coma que me inseri conscientemente. E ali está meu copo ainda vazio, ainda em minha frente. Com a moça junto a um longilíneo rapaz de porte cinquentista. Faltou-lhe apenas a gravata e ombreiras. E o terno. Mas ainda assim me lembrava dos filmes de época, e a fisionomia de elegantes cavalheiros que beijavam tão-somente a mão de suas damas – raramente os lábios.
Em mim, personalidade faltava. Anseio eu desenvolvia, mas não tinha a perspicácia necessária para falar-lhe. Não entendo ainda do doce sabor das conversas entre estranhos. Mas um dia beberei desse licor. E largarei a gim de lado, para ter noites por inteiras, e não fragmentos de sonhos e desatinos.
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