Abri a porta para você entrar. Tirei seu casaco, coloquei no móvel que um dia encontrei e pensei que seria do seu gosto. Ainda tenho que reformá-lo. E acho que ficaria bonito com alguma intervenção estética que tirasse esse ar de chapeleira formal e o tornasse parte da casa, algo mais orgânico. Aproveitei e também coloquei sua bolsa por ali perto, em cima de um puff que uso como apoio pros meus objetos, ou mesa de centro, ou de canto, ou pra apoiar os pés enquanto deito no outro que você acha desconfortável. Ou pra apoiar a bunda mesmo, porque não?
Acredito que agradeci pela garrafa de vinho que você me trouxe, logo depois de alocar suas coisas. Senão nesse instante, talvez ao final da noite. Mas sei que esses chilenos hoje estão em falta no mercado, e possivelmente os estoques que você mantém em casa valem muito hoje em dia. Mais um motivo pra agradecer, porque demorará pra normalizar a importação deles. E são bons, da minha preferência, como você sabe. Gosto dos sulamericanos, bastante pelo seu custo-benefício.
A mesa já estava posta, a que eu comprei no lugar da Saarinen que você não gostava. Básica, simples e comprida, para caber nossos amigos e nossas famílias. Lembro de abrirmos uma garrafa que eu já tinha preparado e nos sentamos falando das amenidades da vida. Daí em diante lembro de uma camiseta amarela que você me trouxe e me devolveu logo após o pudim de leite que comemos como sobremesa. Ou era um flan desses de mercado? E que eu não sei se guardei a camiseta no meu armário ou deixei em algum canto ou se está no armário da lavanderia como pano de chão ou se foi direto pro lixo.
O jantar lembro que encomendei no restaurante aqui perto de casa, pois achei melhor não manter o meu tempero. Mas coloquei na mesa como se tivesse feito. Peixe com batatas, apesar de você nem ser nenhuma entusiasta de peixes. Acredito que você não tenha notado a diferença, depois de algum tempo. Afinal, comemos, rimos, mais algumas amenidades. Lembramos histórias bonitas, histórias tristes. Contamos partes que não lembrávamos. Inventamos outras que cobriam alguns vazios que estavam em nossas memórias. Histórias.
Deixamos bem claro que aquilo foi escrito entre risos e alegria, e muito bem escrito, devidamente registrado. E que se há algum borrão ali, deve ter sido apenas de nosso suor, pois as lágrimas nós enxugamos um do outro antes de deixá-las cair. E fomos além no nosso conto a quatro mãos. Chegamos a um romance que, ainda que curto, foi profundo. Foi como deveria ter sido.
Ao abrir a porta pra você sair, ao descer até o portão para poder liberar, já que o porteiro não trabalha na parte da noite e as portas sempre ficam com as três trancas passadas, e só com a chave para abri-la, acredito que você tenha me devolvido a cópia das chaves que estavam contigo. Ou você me mandou pela diarista. Não lembro. Já faz um tempo e minha memória ficou nos registros que colocamos no papel aquela noite, e nos documentos que assinamos no escritório do seu advogado. ‘Overall, I think we did a good job¹‘.
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