Resolvi assumir minhas tarefas de casa hoje. Acordei cedo, passeei com o Luc logo após o sol nascer, reguei os temperos na sacada, recolhi as roupas no varal, enquanto a água esquentava para passar o café.
Nesse meio tempo, ainda passei na padaria, pedi dois pães recém saídos do forno, e comi metade de um deles enquanto voltava para casa.
Um pouco de café na caneca quase azul com algum quase desenho que quase não decifro, mas que sei o significado por estar escrito em alguma parte dela. Completo com ¾ de leite e tomo, junto com a metade que sobrou do pão, e manteiga Aviação – a de pote laranja, com sal.
Louça na pia, recolho os apetrechos e me ponho a lavar o que sobrou dos últimos três dias. Ligo o som antes disso, e coloco algum álbum de 2004, acredito que uma coletânea que reunia Árcade Fire, Architecture In Helsinki, Franz Ferdinand, Mombojó e Killers.
Cantava ali, sozinho, enquanto a louça ia escorrendo entre sabão, água, esponja e duas mãos esquerdas que tentavam se entender com esse ofício. “nem parece que foi ontem que o acontecido aconteceu; nem parece que o esperado num instante desapareceu. Nem parece que foi lá. Nem me parecia ser um lar… Não sei se no fim tudo vai voltar”
Parti para os trabalhos oficiais, e entre processos e contratos e ofícios e notificações e novos contratos e clientes e telefones e emails e g-talk, consegui passar do almoço, passar no café para tomar um chá e retornar para a rotina: processos, contratos, ofícios, notificações, novos contratos, velhos clientes, telefone mudo, emails de propaganda e marketing e alguns cadastros idiotas que errei ao indicar meu email oficial, g-talk, MSN, skype. Fim de tarde, paro às 18:00 e faço hora até as 19:00 para sair do escritório, pois o trânsito no percurso entre o trabalho e minha casa fica horrível nesse horário.
Ouço o Hot Fuss inteiro, repetindo algumas vezes as faixas 3, 8 e 9. Tragic Eyes. Desisto do meu carro e sigo a pé até a minha casa. I-Pod no shuffle, e as músicas vão passando pela mente: Veja Bem Meu Bem, When I´m 64, I Believe in Miracles, Wouldn´t It Be Nice, God Only Knows, Blister In The Sun, Crua, Staying Cool, Quando Ela Dorme Em Minha Casa, Hello Goodbye, e assim se passaram os 45 minutos do trajeto.
Em casa, na geladeira tem os líquidos que ficaram na última janta: 4 latas de antártica, dois vinhos, um cabernet sauvignon e um sauvignon Blanc, meia garrafa de chiboquinha e jägermeister. Tem ali uns ovos, acredito, e talvez no fundo um pacote de pão de forma que comprei na última semana. E sim, ainda tem o pão que comprei pela manhã, que deixei amolecendo para comer com café no fim do dia.
Enquanto passa o jornal nacional com o mudo acionado, deixo rodando um disco que baixei do Vinicius de Moraes, em La Fusa, com a Maria Creuza e o Toquinho. E em seguida vou ler, mas antes mudando o disco e deixando tocar algo da Edith Piaf.
Fecho o Velho e o Mar e me despeço de Hemingway mais uma noite. Ainda sem sono me levanto e escolho um chá para tomar antes de dormir. Cidreira, Camomila, Boa Noite, Morango, Limão. Escolho qualquer um deles, enquanto na minha cara tento não sorrir amarelo enquanto a música da Edith não me sai da cabeça: Non, je ne regrette rien.
Deito mais uma noite com a luz já apagada e a cama fria. E ao deitar eu tenho a certeza de que a minha cama é grande demais pra mim. Mas que não foi suficiente pra nós dois.
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