Blackbird Fly

Ouvi um tiro. Olhei para os lados e não via ninguém. Mas volta e meia, ao fechar os olhos, tenho a impressão de ver ou ouvir um gatilho sendo puxado. Está ali, na minha frente, ao meu lado, pelas minhas costas. Sinto o vendo que envolve a bala fazendo o percurso até encontrar seu alvo.

Já visualizei umas vezes esse alvo. Estatura média, conjunto desproporcional, mente vivaz e coração inexistente, congelado nos idos dos 90 por algum ex namorado trôpego, que a fez desistir de acreditar nas relações. Preferia viver aquele momento sem sentimentalismo, apenas pelas emoções que trazia à pele. Ao pêlo. Pêlos que tinha espalhado pelo corpo, aos montes. Pelos que não faziam parte de um corpo feminino, por mais que todas as linhas de seu corpo demonstrassem que era um. Pêlos que estavam ali, em sua barriga, em seus seios, em suas coxas, e também ali onde nossa imaginação flutua. Muitos. Exagerados.

Exagerado como o barulho que o engatilhar da arma fazia. Metal com metal batendo, como um freio já sem pastilha, onde o mecanismo acionado cola com o metal do disco, e um barulho assustar se faz. Nos primeiros sonhos, acordava ali: engatilhava e aquele som me transportava ao mundo dos sãos.

Depois fui sendo condescendente com o ato. Escutava o engatilhar da arma, os passos silenciosos ou os berros de parado, mas acordava ao avistar algo que se assemelhava ao rosto daquele alvo. Até o dia em que o alvo criou um rosto, um corpo em pêlos.

A partir de então, meus sonhos deixaram de existir. A morte só me apareceu uma única vez, sem me dar chance de reavivá-la, ainda que, por vezes, tente com tanto carinho.


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