Os dias estão correndo, e cada dia mais rápido. Cada dia eu deixo de observar algo que antes de deu tanta alegria. Foi-se o joão-de-barro que montava sua casa em frente à sacada; foi-se o nascer do sol que me fazia imaginar cafés da manhã ao lado de alguém que me trouxesse alegria num olhar, mesmo que sem sorriso; o cheiro de café passando e os pães de queijo no pequenino forno elétrico. Coisas que, mesmo sozinho ou em imaginação, me faziam uma pessoa melhor.
Mas me vejo fazendo os mesmos planos, vivendo os mesmos dias e repetindo os mesmos erros para tentar voltar a ser quem eu era. Deixar de ser a projeção de uma imagem que alguém criou pra mim, alguém único ou múltiplo que nem eu sei explicar que seja. Volto a andar por mim, um andar medroso, contido. Um andar trôpego, que escorrega facilmente e me faz voltar atrás várias vezes. Que me faz não assumir riscos enfrentáveis. Que me faz temer o conhecido mais que o desconhecido.
Nessas e noutras me pego vendo a vida alheia. Reparando no gramado vizinho e vendo que nada tenho plantado no meu. E às vezes fico feliz com a tristeza alheia, pois ela me faz esquecer da minha. O que não faz de mim uma pessoa melhor. Só uma pessoa que está voltando a errar do jeito mais certo possível.
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