Pra que?

Ela só tinha na vida uma certeza: tudo, um dia, passa. Era assim com as paixões e relações, com as bandas e estilos, com as boates e com os restaurantes. Vivia intensamente cada um deles, pelo prazo máximo que suportava. E então, quando se cansava daquilo tudo, jogava pro alto e se transformava.
Outra pessoa nascia, com a mesma certeza: tudo, um dia, passa. Adorava cinema e teatro, vivia em concertos musicais, acompanhava os seriados de menininha que passavam na TV. Mas nunca agüentava até o fim. Via metade dos capítulos e deixava de lado. Lia quase todo um livro, mas desistia das fases finais. Ouvia todo o show, mas saia antes do Bis. Assistia todo o filme, mas saia antes das luzes se acenderem.
Quando via, já se transformara novamente. Largava dos tênis pelos saltos. Do jeans pelos vestidos. Do descabelado pelo cabeleireiro. Das unhas vermelhas pelas ‘francesinhas’. Do rosto lindo pela maquiagem. Alisamentos, banhos de creme, novas roupas, novas grifes, uma viagem para Nova Iorque em dezembro, um café no Joe, ao lado do Gristede’s: Ecco Caffè, por gentileza. Fina, elegante, completa. Perdida.
Se matava no momento seguinte, buscando surgir em algum lugar desconhecido. E renascia, com os mesmos anseios, a mesma personalidade e a mesma insegurança. E contabilizava mais um coração partido tatuado em seu peito.

an eye for an eye, a dream for a dream.

Publicado

em

por

Tags:

Comentários

5 respostas a “Pra que?”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *