A Hora do Vôo

Esperava pelo meu vôo, que já se atrasa por mais de hora e ainda sem qualquer previsão embarque. Parei com meu isolamento no terminal e comecei a observar os rostos que me faziam companhia: pessoas sozinhas ou aos pares, observando os horários dos vôos, suas confirmações enquanto comparavam o que viam com seus relógios, desacreditados – atrasado; última chamada; atrasado; confirmado; delayed.

A minha frente um quarteto de estrangeiros – com quem me encontrei novamente dias depois, no Pão de Açúcar – composto por um casal de meia idade, uma filha recém chegada à idade adulta e um rapaz que, suponho, era seu namorado. Não andavam de mãos dadas, não trocavam carinhos, mas trocavam olhares tão íntimos e tocavam seus joelhos de forma particular, que não conseguia chegar a conclusão diferente. Bateu uma inveja enquanto olhava. Parei de reparar no romance e me prendi à suas roupas e rostos americanizados que me confundiam com alguns alemães que conheci em 2009.

Os demais rostos sem expressão pouco me importavam, salvo a conversa entre três angolanos, sendo dois negros e um careca praticamente albino, e uma jovem morena, brincos dourados, botas de cavalgada, um chiclete à boca e um olhar que as vezes se cruzava ao meu. Investi no contato visual e insisti em lhe sorrir, mas não tive retorno.

Voltei aos americanos com jeito alemão. Eles insistiam em me fitar. Não no plural, em verdade. O jovem senhor, patriarca daquele quarteto, me olhava com curiosidade. Um olhar intimidador e intimista, algo entre o paternal e o pervertido, como se buscasse ora uma informação ou um apoio em terras que lhe eram estranhas, ora uma aventura em algum recinto reservado na sala de embarque. Não quis questionar seus interesses – salvo se lhe interessasse ser meu sogro.

Após minha espera, finalizando o segundo álbum do Belle & Sebastian (o segundo em meu mp3 player, The Life Pursuit – 2006), enfim chamaram para o embarque. Os cabelos encaracolados da morena de brincos dourados e botas de montaria correram em direção à fila que se formava, deixando claro que ela deveria ser de Curitiba. E enfim parti para meu lugar no vôo, o primeiro solo em busca de uma nova razão.

“Someone above is looking with a tender eye”

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