– Café pra dois, mas o meu eu quero com mais leite que café, por favor.
Cheguei pedindo no balcão com aquela cara de acabado. Eram 7 da noite de um domingo que me cansara mais do que a sexta e o sábado alcoólicos. Ambos extremamente alcoólicos, a ponto de ainda sentir o gosto forte que a golden ale me deixou na boca. Esses meus exageros acabam partindo minha cabeça todo final de mês, e daí tento exagerar novamente para esquecer e empurrar pra o final do mês seguinte.
Mas a menina ali, me atendendo com boa vontade, não se importava muito com todo aquele estrago em sua frente. Perguntou se queria café normal, aquelas passados e tal, ou se preferia expresso. Pedi o passado, mais fraco. Meu fígado sempre reclama quando tomo café muito forte. E eu sempre culpo o café por isso.
Ela trouxe as garrafas térmicas em miniatura à mesa onde me sentava. Essa é uma das minhas maiores paixões por parar ali quando posso. Café e leite em garrafas térmicas. Sinto como se estivesse na casa da minha avó. Colocou as duas de café e a de leite, as duas xícaras, me olhou estranhando o pedido, que eu complementei: – Uma torta de queijo ou um quiche de alho-poró e um croissant com nutella, por favor.
Olhou em volta, procurou uma caneta em seu avental e anotou o pedido. Lançou no sistema mais dois números e voltou a olhar para minha mesa.
Oito gotas de adoçante. Dois terços de leite. Um terço de café. Assim que eu gosto de preparar. Não fujo desse padrão. No outro completei de café e um sache de açúcar mascavo, porque é natural e essas coisas de melhor pro meio ambiente ou faz menos mal pro organismo que eu não entendo direito. Olhei no relógio e eu estava dois minutos adiantado.
Eram sete e seis quando você entrou. Sorriu um sorriso molhado, culpando o clima estranho de Curitiba pelo atraso. Como pode sair de manhã de casa com roupas curtas, como se estivesse num passeio no calçadão do litoral e agora, caindo a noite, parece o outono chegando. Culpa do vento e da chuva que se formava. Domingo ótimo para um café numa padaria onde tudo lembra a França. E enquanto você tirava o casaco, me levantei para ajudar e prestar aqueles atos cavalheirescos que trago comigo.
Nisso, aponta a atendente, sem o olhar desapontado para a mesa com duas xícaras e apenas uma pessoa. Entendi o sorriso dela como quem me apoiava. Devia acreditar que eu poderia ser um desses malucos que vivem o resto da vida sozinho, imaginando ou esperando alguém que partiu dessa vida – dessa vida que eu vivo, ou da vida que ela vivia. Traz pra mesa os pedidos: quiche de alho-poró e o croissant com nutella. Você sorri agradecida para ela, e me joga um olhar questionador – já pediu? Não posso escolher?
E enfim, sentamos e começamos aquilo para que nos encontramos. Falar da vida. Das amenidades. Conhecer um pouco mais de cada um, além do nome e sobrenome que compõe nossos emails. Falar do chefe que chegou com péssimo humor na quinta-feira, com uma cara de quem veio direto da quarta rock do James. Falamos e rimos e nos suportamos por mais uma hora. Na hora seguinte reclamamos e abrimos alguns problemas, algumas situações delicadas que estávamos vivendo. Enquanto você estava ao meu lado, contando tantos problemas, eu estava tramando uma forma de me transformar em mais um.
Pagamos a conta e deixei você em casa. Um último sorriso cúmplice, as maçãs do rosto coradas se despedindo, e Allo Darlin’ tocando… “We make believe that our hearts are never shot and somehow you’ve convinced me that I’m pretty when I’m not”.

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