E então eu me olhei no espelho uma última vez. Tinha a barba feita, gravata azul sobre uma camisa branca com quadriculados azuis. Linhas finas, que, de longe, não permitem uma visualização correta de seus traços. Mas, na frente do espelho, conseguia ver esses detalhes e até uma pequena mancha próximo ao bolso que só eu dava atenção. Coloquei o blazer do meu traje cinza, que era o que melhor combinava com aquela gravata fina que eu raramente usava, desarrumei um pouco meus cabelos e parti para a rua.
Deixei a porta da cozinha aberta e chamei o elevador. Tenho uma mania estranha de deixar a casa trancada quando estou em casa, e aberta quando saio e volto no mesmo dia. Preguiça ridícula que eu não entendo. Tenho umas manias que estou perdendo com o tempo. A mania de ficar ranzinza em festas de formatura, casamento, essas onde tem uma banda ruim tocando, música péssima, mas um monte de gente animada e/ou bêbada se jogando pelo salão. Essa era uma das piores. Ao menos isso deixei pra trás. Assim como a intolerância musical que me afetou durante algum tempo. Aprendi a tomar cuidado com as influências, e não deixar de aproveitar as coisas por não serem exatamente o que eu gosto. Refleti sobre isso enquanto o elevador vinha do primeiro andar ao terceiro. Entrei e apertei o botão que me levaria à garagem, e fiquei pensando sobre tantas mudanças enquanto o display do elevador mostrava: 3, 2, 1, 6. Desci, abri o portão de acesso, desviei da Kombi azul recheada de ferrugem, entrei no carro, meio apertado pela distância entre ele e a Volks, liguei o som, procurando por Hapinness do Weepies, só pra ouvir “You gotta begin not begin again”.
Dei partida no carro, ao mesmo tempo que abria os dois portões que me separavam da rua, e encarei aquela noite escura, sem saber para onde ir. Sabia que era um dia de despedida daquelas roupas e daquela vida, e que dali pra frente eu voltaria a ser algo parecido com o que era anos atrás, quando tinha certeza do que não queria. Uma despedida como a tempos atrás tive com um par de taças. Essa é a única certeza que eu tenho, novamente. O que eu não quero, ainda que tenha tentado suportar por algum tempo. É um não querer mais que bem querer, me mostrou Camões, lembrando de outros versos:
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
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