Alinhe tinha completado 25 anos no último inverno, e estava envolta nos problemas normais da transição da vida de estudante pra vida adulta, efetivamente: as contas em nome dela, aluguel, levar o gato no veterinário pra lavar e resolver o problema com os pelos pela casa, levar a gata que morava com ela no hospital pra tomar soro e comprar chocolate pra ela quando lhe fazia o mesmo, mercado, biscoitos, açougue, cartão de crédito e telefone pós pago. Era uma nova vida se abrindo.
Acordar cedo agora lhe dava prazer. Levantar às 7:30, levar o laptop pra cozinha e enquanto prepara o café lendo as notícias nos blogs que lhe interessavam: amigos,notícias culturais e moda. Nove horas já estava caminhando até o trabalho.
Lá chegando, cumprimentava desde o porteiro até seu chefe, todos pelo nome, com um sorriso interno que jamais deixava transparecer. Jamais não, raramente. Algumas vezes após noites de sexo ou de álcool ou de chocolate ela o mostrava. Sentava em sua mesa, acomodava sua bolsa ao lado, celular junto do monitor, retirava da gaveta sua caneca pois, sustentável como era, preferia não usar os copos de plástico da empresa, e corria até a sala de café para começar seu dia. Primeiro ato: conversa sobre a vida com mais duas colegas: Andréia e Cintia.
Ouvindo o que falavam, se tinha certeza estar em frente às três mulheres mais felizes do mundo. Se solteiras, aproveitavam a semana. Quando de TPM, comiam sem engordar. Não faziam regime: o metabolismo é que era excelente. O namorado era um cara perfeito, no estilo ‘vinho, flores e noites românticas com velas e fondue’. Quando terminavam um namoro, é porque a vida pedia que cada um fosse para um lado, mas continuavam amigas dos ex namorados. E assim seguiam, inventando a felicidade por 5 minutos, enquanto cada uma completava sua dose matinal de cafeína.
Aline conversava pausadamente, comedida, quase infantil, destoando da forma agressiva de sua beleza. Ela era bruta, traçado forte no rosto, assim como na escolha de suas roupas, querendo sempre se mostrar presente. Mas era singela em seus atos, em suas cores, em seus olhares. Ainda era muito menina quando o peso do mundo estava nas suas costas, e tentava esconder isso com uma sisudez falsificada.
Nesta quarta, o trio conversou sobre as festividades daquele dia: o início da primavera, como qualquer outra data inoportuna, era motivo pra dono da empresa promover uma festa entre seus funcionários, e todo mundo ficava na sede depois do expediente, esperando os quitutes e drinks que seriam servidos. Andréia e Cíntia estavam estonteando, e mostraram pra Aline sua tática: cinta liga e espartilhos. Tudo para impressionar os sortudos da noite. Aline, por sua vez, estava como sempre: calça saruel, camiseta dos Stones, batom vermelho, brincos azuis, muito lápis no olho e nenhum sorriso na cara. Se olhasse para ela por mais do que 10 segundos, qualquer um teria medo que ela o mordesse, tamanha era a sensualidade que exalava.
Quinta, 10 da manhã, Aline acordou com uma baita de uma ressaca. Olhou em volta não entendendo onde estava, o que tinha feito, ou ao lado de quem havia acordado. Na verdade, mal lembrava de qualquer desses detalhes, inclusive o primeiro nome do rapaz de cuecas brancas de material sintético que lembrava aquelas sungas com dos olhos atrás, tão em moda no início dos 2000. Ele estava deitado no sofá de frente para uma cama em estilo oriental onde ela estava, e que não era a sua. Puxou na memória o último dia. Lembra que fora a uma festa da empresa, que comemoravam o início da primavera, que estava frio quando saiu de casa pela manhã já preparada pra hora extra etílica, que esquentou durante a tarde, choveu no fim do dia… e pensou “e pelo visto, pegou fogo no fim da noite”. Entre a chuva e as chamas, 4 doses de tequila, algumas caipirinhas, meia garrafa de uísque e energético foi a contabilidade etílica que conseguiu formatar. Sorriu da tontura.
Olhou pra cara do sujeito, viu que ele ainda respirava, e saiu caçando seus sapatos. Ainda estava vestida, o que a fez acreditar que sexo não era algo que havia acontecido naquele quarto, enquanto ela esteve nele. Achou um pé embaixo da escrivaninha, enquanto aquele rapaz usava o outro como travesseiro. Entre um ronco e outro, deu um jeito de colocar o travesseiro que estava na cama no lugar do sapato, segurou os sapatos nas mãos e saiu pisando em ovos, para não se fazer ouvir. Saindo da porta do apartamento, colocou-os enquanto esperava o elevador subir. Sorriu pra zeladora, pro porteiro, e foi pra rua. Procurou em sua bolsa seus óculos de sol, pois o sol era forte de manhã.
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