O relógio apontava a proximidade com as 5 da manhã de pela quinta-feira. Ele saiu às 3:30 do Jazz e passou pelo Club pra ver o que tinha por lá. Ela ficou no Club das 23:00 às 4:00 esperando algo acontecer – sabia que, no final das contas, se nada desse em nada ele passaria ali pelo final da noite para um apelo final.
O namoro deles havia terminado há uns anos, mas sempre que davam eles faziam questão de esquecer disso. Teatro, cinema, jantar em locais bonitinhos com um quê de romantismo. Erravam loucamente com o quesito amigo-de-ex. Meio como se declarassem em silêncio: “não quero fidelidade, dedicação, exclusividade. Só alguém pra me fazer companhia nessas pequenas coisas, quando os genéricos não estiverem disponíveis na minha prateleira”.
E nessa noite, lá se encontraram. Ele, Jazz, sozinho, carro, Club, Ela, 0X0, álcool, desejo, proposta de carona, beijos no estacionamento. Uma pequena bomba de sentimentos desconexos que os levaram para o apartamento dela: centro da cidade, cozinha arrumada, sapatilhas no lado da porta de entrada, outra perto da mesa de jantar, outra do lado do controle remoto da TV, e mais um chinelo, tênis, um sapato espalhado ali, entre a estante com livros divididos entre literatura e psicanálise e pela nacionalidade dos autores, perto do abajur.
Os 5 minutos do trajeto foram suficientes para reduzir a libido dela ao chegar no apartamento. O rosto era de cansaço, sonolento, de quem transaria naquele momento mais por caridade que desejo.
Eles na cama, ele observando esses movimento no tabuleiro tentando inutilmente trazer um pouco de prazer para aquele rosto, ela com sorrisos e bocejos. Quando se deram conta, ele com uma mão fazia cafuné e embolava o cabelo dela – a coisa que ela mais gostava e a que ela mais odiava, com a mesma mão – enquanto a outra se recostou sobre a barriga dela, descansando. Ela vira de costas pra ele, em busca de aconchego.
– As vezes eu acho que o que mais gosto contigo nem é o sexo, mas a noite ao seu lado, o ombro, o abraço. Pena que amanhã tudo volta ao normal.
Ela, enquanto escutava, já se punha a pensar: amanhã tenho que trocar este lençol e lavar as roupas de cama. Será que ele vai querer sujar uma toalha também?
Dormiram.
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