Ele faz gracejos. Ela sorri com um olhar apaixonado. Encostam testa a testa, em seguida os narizes, os olhares se afundando e deturpando a visão de cada um. A proximidade só desfoca a realidade: qualquer defeito que se veja num rosto de longe, de perto se torna um emaranhado de nuvens, onde a memória faz crer que é um rosto: olhos, boca, cabelo, o desenho da sobrancelha… tudo que está ali não passa de um reflexo do que está guardado na memória. E normalmente tendemos a guardar o que nos agrada. Não em todos os casos, nem todas as pessoas.
Mas ali, entre juras de amor e paixões latentes, aqueles dois nem percebem que são observados. O mundo está de olho no que acontece no corredor do apartamento dele. A luz baixa, vindo do abajur colocado ao lado do sofá e da poltrona recuperada pela cidade, cria uma única sombra daqueles dois corpos. Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, Vinícius. Ali está o que você desejava. Dois corpos unidos, desejando a troca de afeto. Não havia aquele desejo carnal, peles, suor. Eram duas pessoas se olhando, sorrindo, em pequenas carícias em grande carinho.
O abajur é desligado. A única luz naquele ambiente é a do relógio digital, numerais verdes e fortes, que transformam a escuridão em penumbra. Em 22:37. O mundo que antes observava passa a imaginar na hora em que param de se amar partem para o sexo. Cria uma história ao ver que o sofá aumenta de volume, que um pé treme levantando-se próximo à mesa lateral onde o relógio lembra que aquele domingo está terminando, aproximando-se das 23:00. O vulto que reproduz movimentos repetitivos, ora lentos, ora incisivos, algumas almofadas que são jogadas do sofá para o canto da sala como uma sobra preta que atrapalha o brilho daquela iluminação verde.
O suor, as palavras abafadas, os olhos cheios de vontades. Tudo isso é instintivo. Não há amor durante o sexo. Mas a memória desvirtua e colide as sensações ao gravá-las. Não em todos os casos, nem todas as pessoas.

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