Impulsos

Era dezembro e eu fugia do passado recente. Carreguei o iPod com o disco do Otto, bandas curitibanas e outras do começo dos 2000 e caí na estrada em busca de um mínimo de apreço. Meu corpo puído, minha cabeça quebrada tentando juntar as peças daquela nova realidade da qual corria, corria, mas era claro que uma hora ela se abriria em minha frente. Como tentar dar tiros de 100m na beira de um precipício: mais tempo, menos tempo, algo vai dar errado. Seja um cadarço desamarrado, uma pedra solta, o cansaço do corpo pelas corridas sucessivas. Uma hora o risco que se assumiu vai mostrar que ele existe, cedo ou tarde. Ali era a mesma coisa. Assumir diferenças, objetivos, conjecturas. Fases que se diferem, personalidades não complementares, rostos bonitos que não bastam para esconder sorrisos amarelos e a tristeza dos pontos finais.


Snow Patrol – Chasing Cars

Passei poucos dias escondendo as dúvidas entre suor, sorrisos e jantares frios. Por mais que houvesse calor humano e intimidades superficiais, ali tudo era de uma rasa profundidade, necessária para o momento. Era tudo cerebral enquanto as lascas do quebra cabeça iam se deslocando e implodindo como um iceberg em degelo.

Foi-se aquele dezembro, e veio um novo ano, e tantas e novas e velhas histórias se repetindo e repetindo, e se conhecendo e se aceitando. E mais um outro e novo dezembro se abre pra começar a praticar tantas mudanças, aceitar a impulsividade e lembrar que tudo tem de ter um começo. O fim a gente escreve quando ele chegar, enquanto se vive daquilo que se faz feliz.


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