De Escárnios a Escarros

– Oi, Bia! Como vão as coisas? Perguntou Rafael, inibido, com um sorriso amarelado enquanto ela abria a porta do carro e se jogava num abraço aconchegante.
– Eu estava bem, mas olhando para sua cara não sei se vou continuar a estar… o que está acontecendo?
– Nada, nada. Coisas do trabalho.
– Coisas do trabalho? Do tipo uma viagem de última hora pro escritório do Rio e sem data pra voltar? Porque tem uma mala aqui no banco de trás grande o suficiente pra caber todas as suas roupas que estão no meu armário. Ou estavam.
– A minha escova de dentes continua lá. E Alex abriu novamente aquele sorriso amarelado.
– Então é verdade? Tuas coisas estão aqui dentro? Colocou tudo dentro dessa tua mala?
– Te falei: deixei a minha escova de dente no armário. E meus livros também. Eu volto logo, mas a chefe quer que eu passe um tempo no escritório de Poa, porque o pessoal não anda rendendo o que deveria…
– Onde?
-Porto Alegre. Tem alguém lá que…
Mal ouviu o nome da cidade, e Beatriz já fechou o rosto e perguntou: – Chefe? Sei, sei…
 
As coisas já não estavam bem. Ele chegado do trabalho já afrouxando a gravata, beijando os lábios de Beatriz como se por obrigação, encostando sua boca na dela mas com quem dá um aperto de mão. Não havia qualquer intimidade naquele gesto, como se cumprimenta-se uma estranha encostando bochecha com bochecha. Beijava-a, pegava um cerveja na geladeira, ligava a ESPN e ficava vendo o resumo dos campeonatos de futebol do leste europeu, enquanto ela voltava pra cozinha e preparava o jantar, como fazia desde setembro de dois anos antes.
– Rafa, me faz um favor? Vai então, mas vai de vez. Eu disse que perdoava você, que achava melhor a gente continuar juntos, que te amava… mas pra que? Me diz, pra que? Só pra olhar pra cara da minha mãe e contar pra ela que a gente está feliz? Merda! Não estou feliz contigo. Há tempos!
– Eu sei, eu sei. A culpa é minha, Bia. Desculpa, eu vou melhorar, me deixa tentar que eu prometo…
– Melhorar? Tentar? Não tem como, Rafael! Com você as coisas já ficaram claras: a gente não se gosta mais. Há quanto tempo a gente não se beija decentemente? Não vamos ao cinema? Não transamos?
– A gente fez amor ontem a noite, paixão…
– Amor? Não estou falando de amor, porra! Estou falando de tesão! de desejo! Um entra e sai não representa nada depois que se perde a virgindade. O que interessa é o prazer com isso, e não só esse… (e sinaliza, usando o dedo médio de uma mão invadindo a outra mão fechada).
-Bia, eu te amo.
– Me amava. Vai! Vai! Agora saia daqui. Vá pra Poa. Pra puta que o pariu, se quiser. Só não volta, por favor. O que ficou, ficou. Não vai estar aqui se você pensar em voltar! E desce do carro, batendo a porta do Uno vermelho que ela ajudou a escolher.

Rafael ficou olhando Bia partir. No fundo, ele também queria aquilo. Sentia-se sufocado em voltar pra casa, em morar com ela, em ter que transar por obrigação. Muitas histórias passaram pela sua cabeça, até seu celular vibrar.

Era sua chefe perguntando onde ele estava, porque da demora. E pedindo pra ele não se enrolar. Ele ligou o carro, sorriu por uma última vez amarelo e saiu pro escritório.

Beatriz subiu correndo os três lances de escada que levavam até o seu apartamento. Ligou pro trabalho e falou que não estava se sentindo bem, no meio de uma crise nervosa, e que se aparecesse qualquer coisa urgente era pra ligar pra ela, que ela resolveria, mas que naquele dia e no próximo iria ficar em casa.

 

Falava no telefone e olhava para sua estante. Haviam ainda três ou quatro livros de contos do Rafael ali, a série do mochileiro das galáxias, algumas porcarias de poesia. Desligou, e foi pro banheiro lavar o rosto. Ali, sob o balcão, restava aberto um livro. Viu a capa: Domínio Público. Pegou para olhar o que era, e viu um livro de quadrinhos, contando histórias de Augusto dos Anjos, Machado de Assis, Olavo Bilac. Largou com raiva, molhando na água estava em volta da pia. Abriu o armário e viu que ali estava mesmo a escova de dentes dele. Retirou do armário com raiva, para jogar na lixeira. Mas antes de jogar fora, lembrou de um dos poemas do Augusto dos Anjos que aprendera na escola. Pensou, e usou-a. Um último beijo, ela pensava, já que essa era a única forma de chegar perto da boca dele nos últimos tempos. Por fim, cuspiu aquela mistura de saliva e pasta de dente sobre a escova, e colocou-a no lixo.

No meio disso tudo, Rafael recebia uma SMS enquanto voltava para o escritório: Saudades. Do número de sua chefe. E dessa vez ele sorriu normalmente, e não a apagou.


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