Ziguezagueei pela Rua Aurora, buscando o único poste que ainda brilhava naquela rua. Aquele era o centro sujo da minha cidade, que misturava o cheiro de pastel frito durante o dia inteiro com a poeira que os carros levantavam enquanto passavam lentamente naquele lugar de trânsito frenético. Os dois me enjoavam. Não sei o que mais eu repelia por ali: aquele cheiro, que durante a madrugava se misturava à uréia daquela meia dúzia que dormia nas marquises ou aquele trânsito parado às 18:23, quando eu olhava da janela de casa e não sabia quem eu chingava por aquele buzinasso inútil.
Motorista é uma merda. Paciência zero e acha que tudo tem que girar a seu favor. Se pode, invade a pista exclusiva de ônibus, passa no sinal que acabou de vermelhar ou estaciona o carro em cima da faixa de pedestres. Pior: param para descarregar debaixo da placa com um E e um X em cima. Sem falar dos taxistas, que param em fila dupla, achando que são os donos daquela maldita rua e ficam esperando a dondoca descer ou subir, e que se dane quem está atrás ou todo o prejuízo que aquilo pode causar no trânsito.
Entre esses malditos motoristas eu sempre estive. Normalmente dirigia apenas na madrugada. Tenho um gol 83, sem abs, vidros elétricos, direção ou ar condicionado, e também sem IPVA, seguro obrigatório, extintor de incêndio ou cinto de segurança.Só saio com ele de madrugada, acendo a luz baixa, o farol da direita dá sinal de vida, o da esquerda tem vida própria, e saio da Aurora para a Churchill em direção à Boate enquanto Crazy Beat toca no meu celular que uso como rádio.
Chego lá e caio na pista até badalar umas 4 da manhã no meu relógio. O esquema de chegar em casa 8 da manhã eu deixei pra trás. Não aguento mais tanto tempo. Tanto álcool. Tanta gente em volta. Vou sozinho, não falo com ninguém, e volto sozinho. Esse é meu padrão. Mas nessa noite, eu voltei sozinho e bêbado. Todas as noites voltava bêbado, afinal. Esse é meu padrão. Peguei o carro na esquina da Churchill com a Ferreira Goulart, destravei a trava carneiro e subi a Orisvaldo Pereira saindo da Orleans Bragança de volta ao Centro.
Não sabia muito bem o que seguir. Meus reflexos estavam todos confusos e me guiava pelas linhas do chão. Dirigia como se fosse um autorama, seguindo com o carro no meio da faixa central para não me perder na direção. O fato de sair de uma boate cheia de luzes e partir para a rua deixa aquele clima de penumbra na cabeça, as luzes vermelhas se confundem com as da pista de dança e você não tem tanta certeza de qual é a sua realidade no momento. Uma grande confusão de sentidos e você tendo que se guiar até em casa.
Quando entrei na minha querida Aurora, o sol se virava atrás de mim para dar o ar da graça. Levei mais de uma hora e devo ter dirigido a 20 por hora pra demorar tanto num trajeto de 15 minutos. Alguns postes já tinham a sua luz apagada, e na Aurora já não tinha mais a linha pontilhada no chão. Ziguezagueava entre as linhas laterais, até chegar em casa, largar o carro aberto, sem abs, direção, ar condicionado, sem fechar as portas ou acionar a trava carneiro. Sem tirar a chave da ignição. Sem sair de dentro dele, virei para o lado do passageiro e dormi.
Duas horas depois, a moça que cuida dos estacionamentos bateu no meu vidro e perguntou onde estava meu cartão de estacionamento. Mandei ela sair dali, ganhei um multa, levantei meia hora depois para retirá-la do parabrisa e resolvi entrar em casa.
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