Meu filho estava ali, beirando os 13, 14 anos. Não lembro agora. Lembro que era uma época em que eu não sabia se já era hora de desistir de trazer os gibis da Disney para ele, se ele tinha partido pra coleção de revista de sacanagem. Óbvio que estava na época de aumentar o grau de testosterona no corpo, ganhar massa, olhar as meninas com outros olhos. Se duvidar, já estava participando de concurso de piroca. Ou pipoca, como cantava o Chico.
Sei que a maior felicidade dele era chegar na primavera e aproveitar a feira de livros na escola. Tinha novos, usados. Ele tinha um fascínio enorme por livros. Mas essa paixão na primavera era algo pra lá de estranha. Se misturavam suas paixões: literatura, esporte, investigação, jogos de tabuleiro… pedia para que lhe comprasse livros como “O enigma do autódromo de Interlagos”, alguns sobre tênis, outros policiais. Nessa época, ele me acompanhou no mercado em busca de algum presente de natal pra mãe dele e me pediu um livro que dizia ser de filosofia, com uma capa azul, devia ser “O Mundo de Sofia”, que resolveu ler enquanto o resto da família aproveitava o carnaval daquele ano. Uma semana de descanso e baderna para alguns. Pra ele, uma semana deitado na rede com uma garrafa de coca cola de um lado, e o livro encostado numa cadeira.
Outro desses atos que me lembro foi o chilique que deu quando chegou em casa e viu que tínhamos tirado o armário da área de serviço. Chegou perguntando: – cadê os livros que estavam no armário? Entre berros, choro e uma corrida até o seu quarto, largou o almoço na mesa e disse que estava sem fome meia hora depois. Eu tinha doado os livros que eram do meu pai para alguma instituição, e não sabia que ele subia na máquina de lavar para pegar um ou outro.
Pena que o tempo passou e não o via lendo mais. Também não sorria tanto, não se trancava mais tanto. Foi olhando pra vida, saindo, emburrando. Chegava o fim do dia meio triste, e dizia que ia se divertir na casa de algum amigo. Eu o via ao acordar, mas ainda não havia tanta alegria assim. Um dia, no seu quarto, eu vi no criado mudo apenas seu diskman e o disco Tempestade da Legião Urbana. Não sabia o que estava acontecendo com ele e o porque daquele afastamento momentâneo.
Talvez tivesse algo a ver com aquele momento dele. Vestibular chegando, escolhas a serem feitas e tudo parecia enevoado na frente dele. Largou alguns esportes, não consegui mantê-lo em outros, não o apoiei em algumas decisões, o apoiei em outras. Sempre em busca do que era melhor pra ele.
Vi, entretanto, que ele passou a sorrir mais. Nada mais de CDs em seus quartos, nem dias isolados em seus fones. Apenas alguns cadernos, canetas, tudo espalhado pela casa. Um monte de rabiscos, várias frases escritas e riscadas por cima. E alguns sorrisos espalhados.
Encontrei uma carta dele nessa época, falando em desistir da vida e coisas do tipo. Sempre tive medo de suas amizades, das drogas, do álcool. Fui perguntar pra ele do que se tratava, perguntando raivosamente se o que eu lhe dava não era suficiente. O puxei pela blusa do colégio como se quisesse erguê-lo, mas seu tamanho era o mesmo do meu e não tinha tanta força como queria demonstrar.
Ele, chorando, amedrontado, com os olhos vidrados e cheios de angústia, me olhou pedindo desculpas e falou. “Pai, só estou tentando aprender a escrever”. O abracei. Não pedi desculpas. Ele nunca mais escreveu uma letra. Nem demonstrou qualquer felicidade.

Deixe um comentário